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28.2.09

Arte Objetiva

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O Pós-impressionismo e o simbolismo


1. Introdução

Como o nome já menciona, o Pós-lmpressionismo foi a expressão utilizada para definir a pintura e, posteriormente, a escultura no final do Impressionismo, por volta de 1885, marcando também o início do Cubismo, já no início do século XX. A maioria de seus artistas iniciou-se como Impressionista, partindo daí para diversas tendências distintas.
Sentindo-se limitados e insatisfeitos pelo estilo Impressionista, alguns jovens artistas queriam ir mais além, ultrapassar a Revolução de Manet. Aí se encontra a génese do novo movimento, que não buscava destruir os valores do grande mestre, e sim aprimorá-los.


2. Pintura

Na pintura, o mais velho dos Pós-lmpressionistas foi Paul Cézanne (1839-1906), com obras fortemente estruturadas, utilizando formas geométricas bastante simples, desrespeitando a natureza e a realidade.
Especializando-se em fazer "naturezas-mortas, Cézanne buscou trazer à vista o que é permanente, estando aquém do que pode ser acidental. Entre suas obras destacam-se Fruteira, Copo e Maçãs, no qual a preocupação com o "sólido e durável" era sua temática.
Um dos "pós-impressionistas" mais famosos é sem dúvida Vincent willem van Gogh (1853-1890), que dentro do Impressionismo não tinha liberação artística suficiente para melhor exprimir suas emoções. Durante sua juventude foi pregador religioso, tornando-se pintor por volta dos trinta anos. Sua vida com a pintura foi dividida em 4 fases: iniciando na Holanda, seus quadros possuíam os contrastes de claro-escuro; em Paris, como Impressionista, suas angústias manifestavam-se em suas obras; em Aries, ao sul da França, conseguiu libertar-se do Naturalismo, transformando o estilo em um colorido abstrato; e, após várias crises nervosas, transferiu-se para Anvers, uma cidade tranquila ao norte da França, onde em três meses conseguiu pintar cerca de oitenta quadros, destacan­do-se dentre eles Trigal com Corvos.

O Simbolismo e os Nabis

Insatisfeito por considerar que o pensamento da civilização ocidental estava "fora dos eixos" e que a sociedade moderna transportava os homens a uma vida incompleta, dedicada ao materialismo, Paul Gauguin trocou a Europa por uma ensolarada ilha do Pacífico Sul, o Taiti. Aí está sua fase mais criativa, em que pintou seus mais célebres quadros, como Jovens Taitianas com Flores de Manga, Fatata te Miti, entre outros. Gauguin queria uma renovação na arte ocidental e conclamava seus amigos simbolistas a abandonar a tradição clássica para uma volta ao "Primitivismo".
Suas ideias juntam-se às dos pré-rafaelistas, realistas e simbolistas dando origem a um grupo " ", conhecidos como Nabis, que em hebraico significa profeta; era a verdadeira continuação de Gauguin, pois colocava a visão interior acima da Natureza, valorizando a descoberta de um motivo em si, por si, comosendo a essência da arte. Nesse movimento, destacou-se um artista estranho e solitário chamado ustave Moreau (1826-1898), que possuía como tema preferido a história de Salomé e João Batista.
São também importantes nomes dentre os Nabis, Odilon Redon; Aubrey Beardsley; e Henri Toulouse-Lautrec (1864-1901), que é considerado um Nabi transfigurado, como também o primeiro dos fauvistas e, para alguns autores, um dos precursores do Expressionismo.

3. Escultura

Os escultores ainda estavam sob a influência de Rodin, mas alguns já podiam seguir os seus próprios passos, como Aristide Mailiol (1861-1944), que começou como pintor simbolista e. embora não compartilhasse da atitude anti-clássica de Gauguins para muitos autores pode ser chamado de um "primitivista clássico". Uma de suas obras, Mulher Sentada, representa a antítese de O Pensador, de Rodin. Outros nomes que se destacam na escultura pós-impressionista são George Minne e Emest Barlach, que foi considerado como "primitivista gótico".

4. Arquitetura
A arquitetura não foi uma manifestação artística muito desenvolvida no pós-impressionismo. Podemos dizer que somente após o término da Primeira Guerra Mundial a influência do expressionismo manifestou-se na arquitetura, antes de os edifícios e construções se tornarem simples e com um grau de funcionalidade de acordo com o novo estilo moderno da época. Dentre as realizações, destaca-se a Torre Einstein, em Potsdam, obra de Erich Mendelsohn.



O Expressionismo

1. Expressionismo

Em reação ao Impressionismo, surgiu na Alemanha um movimento de um grupo denominado "Die Brucke", que significa "A Ponte", mais conhecido como Expressionismo, que tinha por finalidade desenvolver uma pintura dramática, patética, angustiante e com sensações.
São características da pintura expressionista o uso da deformação visual, che­gando até mesmo à caricatura: o pintor recusa o aprendizado técnico, pintando conforme as exigências de sua sensibilidade. O artista não vive apenas o drama humano, mas também o da sociedade, criticando a exploração do homem pelo homem, tendo sua origem em raízes geográficas e raciais.
O movimento expressionista teve em van Gogh seu grande inspirador, seguindo-se o belga James Ensor (1860-1949), e Edward Munch que possuía uma visão pessimista da figura humana, chegando a uma obsessividade, como mostra sua obra O Grito. Essa linha da pintura teve também extraordinários expoentes, tais como Christian Krog e Ernest L. Kirchner (1880-1938), sendo este último par­ticipante original do "Die Brucke".


Cubismo

1. Introdução

Definitivamente, no século XX todas as coisas mudaram mais rapidamente do que em qualquer época da história da humanidade. Essas mudanças também são sentidas e refletidas na arte. A quantidade de mudanças durante esse nosso século, incluindo novos experimentos na pintura, escultura e arquitetura, é enorme. O mundo se transforma, estando em constante movimento.

2. A origem do Cubismo

Em um momento decisivo para a Arte, o Cubismo surgiu logo no inicio deste século como uma resposta ao Fauvismo, tendo em Cézanne seu inspirador. No final de seu período, o artista achava que a pintura deveria tratar as formas da natureza como se fossem cones, esferas e cilindros. Esta regra foi seguida no estilo da pintura criada por Picasso e Braque, que se caracterizou pelo abandono da representação de apenas um ângulo do tema, sendo este trocado pela combinação de numerosos ângulos sobrepostos, que comumente têm a forma cubóide ou geométrica. A obra de arte é considerada um fato plástico, livre da limitação direta das formas naturais, propondo transformar sua visão com a ajuda de formas geométricas.
O nome Cubismo também veio de Louix Vauxcelles, o mesmo que deu a de­nominação "fauves", sendo logo aceita por todos, principalmente pelos seus dois expoentes: Pablo Picasso (1881-1974) e Georges Braque (1882-1963).
O Cubismo se subdivide em três fases: cezaneano, analítico e sintético.
O cubismo cezaneano é dominado pela vontade de estruturar a obra mediante a decomposição geométrica, com uma poderosa sensação de volume, peso e espa­ço, com o fundo de cor abstraia, tendo sempre a presença do cinza em seus tons.

Outra fase é o cubismo analítico, que tem corno base a decomposição minu­ciosa dos objetos, quebrando-os em múltiplas faces, com uma pobreza de cores (tons cinza e marrom). Nessa fase, destacamos a obra de Picasso, As Senhoritas de Avinhão. Segundo consta, quando Braque viu a obra ficou atónito e insatisfeito com seus próprios experimentos, pintando Casas do Estaque, no qual a luz vem de vários pontos.
Por fim, a última fase é o cubismo sintético, no qual há uma lenta diminuição da decomposição da forma, estabelecendo um leve dualismo entre a figura e o fundo, sendo essa fase também conhecida como colagem, porque se introduziram letras, palavras, números, pedaços de madeiras e até objetos no quadro, tudo isso explicado como uma forma de o artista ultrapassar os limites da visualidade. Um dos grandes expoentes dessa fase foi Juan Gris (1887-1927), que combinava com­posição e espaço pictórico, e Fernand Lenger (1881-1955).
Com certeza, a mais famosa obra cubista é Guernica, de Picasso, pintada em 1937, em um painel de 3,50 x 7,82 metros, após o bombardeio feito pelas tropas nazistas à pequena cidade homônima, durante a Guerra Civil Espanhola.
O Cubismo fez grandes inovações nas artes ao introduzir materiais à pintura, dando um maior destaque à textura.


3. Outras manifestações

Abstração
O termo "abstração" é geralmente utilizado como significado do processo e/ou resultado da análise da realidade. Seria algo assim: se temos seis latas e extraímos o número seis, ficaremos com "um número abstraio", já que esse número não se refere a coisas específicas; por outro lado, só as latas também irá ser uma abstração, desde que não se tome as suas diferenças.
Outra característica forte do Abstracionismo é a não-existência imediata entre suas formas e cores, sendo por isso que um quadro abstracionista não condiz com a realidade.
Tal como o Cubismo, o Abstracionismo também tem suas subdivisões, como o Abstracionismo Informal com o domínio dos sentimentos e emoções, e onde as formas e cores denotam figuras da natureza; e o Abstracionismo Geométrico, no qual as formas e cores devem estar montadas sob uma concepção geométrica.
Dentro do Abstracionismo destacamos Piet Mondrian (1872-1974) e o inicia­dor da pintura abstrata, Wassily Kandinsky (1866-1944), com sua tela A Batalha.

Arte Fantástica o Nostalgia

Com uma evolução não tão forte como o Futurismo, a Abstração e o chamado "Zaum", os pintores do Fantástico tinham em comum a crença de que a imaginação e o interior eram mais importantes do que o mundo externo, sendo esta ima­ginação privada, com imagens próprias do íntimo do artista. Nessa nova concep­ção artística, inclui-se o legado do Romantismo. Os principais pintores dessa linha artística são Giorgio de Chirico (1888-3978) e o nostálgico Marc Chagall (1887-1985), um judeu russo com fortes influências do Cubismo.
Muitos autores consideram o Fantástico como precursor do Dadaísmo e. Principalmente do surrealismo

4. Arquitetura
Desde o século XVIIÍ que a arquitetura estava ligada à pintura e à escultura e dominada por uma constante ida e vinda de "estilos de revivência e ressurgi­mento"; pouco a pouco, a arquitetura vai tomando rumos próprios, principalmente com os novos materiais advindos da indústria, como o ferro, vidro, cimento, con­creto e alumínio.
5. Escultura
A escultura do início do século XX ainda estava relacionada à pintura e vice-versa.
Cubismo
A escultura cubista não teve grandes obras, desenvolvendo-se mais na pintura, pois seu sentido tri ou bidimensional já dava uma aparência escultural ao quadro.

Abstracionismo

Saído diretamente da escultura cubista, a abstracionista também usava recur­sos da colagem cubista, utilizando-se de metal, vidro e madeira. Essas obras abs-tratas foram base para uma derivação do Cubismo, denominado "Construtivis-mo". O movimento teve a participação de famosos escultores, tais como Antoine Pevsner (1886-1962) e Naum Gabo (1890-1977). Tais artistas chamavam suas obras de "construções", ao invés de chamá-las de esculturas.

Durante a Primeira Guerra Mundial, vários artistas se refugiaram em Zurique, na Suíça, que havia-se tornado um centro de refugiados. Os intelectuais reuniam-se para várias discussões, em um lugar chamado "Cabaret Voltaire".
0 precursor do Dadaísmo foi Mareei Duchamp (1887-1968), que já havia exposto em 1913, no Armory Show, de Nova York, com seu quadro denominado Nu Descendo as Escadas.



2. A arte ao acaso

A origem do termo associa-se ao artista plástico húngaro Tristan Tzara que,abrindo o dicionário, colocou ao acaso o seu dedo sobre a palavra "dada", que nao a linguagem infantil francesa significa o diminutivo de "cavalo". A palavra não tem nenhuma importância, podendo ser qualquer outra, pois para ele e seus amigos a arte perdera todo o sentido; o acaso teria mais sentido nessa sociedade decadente.
Junto com o poeta húngaro estava o pintor Hans Arp (1887-1966), que fazia obras "ao acaso"e depois ajustava-as para que se pudesse obter a configu­ração "natural".
Neste mesmo tempo, em Nova York, Duchamp, Man Ray e Francis Picabia faziam"dadas" na cidade norte-americana.final da guerra, em Lausanne, Suíça, é que os dois grupos se juntam e fazem um manifesto e uma revista. Dispondo-se a destruir loch .



Com arte institucionalizada, os artistas "dadas" recolhiam qualquer objeto para ser ex-posto; uma vez, Duchamp expôs um urinol como uma peça de escultura, dando-lhe o nome de Fonte.
A O pintor e poeta Kurt Schwitters também fez colagens às quais chamou de "Merz" e, posteriormente, escolheu tal palavra como sua marca registrada. Merz estendeu-se da pintura por colagens à música e poesia, até à arquitetura com salas inteiras cobertas por objetos ao acaso.
O Dada conseguiu provocar escândalo e, de maneira positiva, mudou a con-cepção de arte, forçando o observador a mudar sua postura, criticando a ordem es­tabelecida. Em 1922, o poeta e escritor dada, André Breton (1896-1966), passou a liderar um novo movimento que acabou por contar com a adesão de muitos artistas dadas: o Surrealismo


Surrealismo

1. Introdução

A palavra surrealismo foi utilizada pela primeira vez como subtítulo a um dra­ma de Guillaume Apollinaire, intitulado Les Mameles de Tiresias, de 1917. O ar­tista, em uma busca constante de reavivar e revelar os dados do inconsciente, ten-ou fundir o consciente conhecido e desconhecido com o inconsciente.
Em 1924, Breton redigiu um manifesto surrealista com a intenção de estimu-ar a imaginação e o entusiasmo dos artistas da época.
Algumas das obras surrealistas representam um excesso de realidade, porém esta característica associa-se a elementos inexistentes, recriados ou transformados a natureza, montando um conjunto irreal.

2. As correntes do Surrealismo.
O Surrealismo está subdividido em três correntes distintas: arte visionária, que buscava a libertação da natureza, dando à realidade uma visão irracional, ncontrando-se nesta corrente o pintor Paollo Uccello; arte primitiva, que se cons­titui numa corrente de menor importância; e, por fim, a arte psicopatológiea, que tem uma ligação forte com o inconsciente freudiano, aceitando o humor corno a cara do desespero humano. Entre os artistas do surrealismo destacam-se o alemão Max Ernst (1891-1976) Joan Miro (1893-1983), que deram início ao chamado estilo da "abstração bio-nórfica"; o belga René Magritte; e o mais destacado de todos, Salvador Dali, com obras como A Persistência da Memória, criando o conceito de "paranóia crí-ica" como recusa à lógica.
Alguns autores citam o desenvolvimento de duas tendências dentro do surrea-ao invés de três correntes; essas tendências seriam a "figurativa" e a ,"abstrata", com Miro e Ernst na última, e Dali e Chagall na primeira

3. Escultura
Tanto o Surrealismo quanto o Dadaísmo não desenvolveram grandes obras nesta manifestação artística; os dadaístas não podiam ser considerados escultores, já que qualquer objeto que fosse achado por eles se transformaria em escultura e seria exposto como uma obra de arte.
No Surrealismo, o uso de madeira e metal foi difundido, mas com poucos ar­tistas de grande expressão.

enc. conhecer abril
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Pintura, a mais antiga das artes 1

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A mais antiga das artes I
Há uns 600 mil anos, o gelo cobria todo o norte da Europa. Ao sul, da França Urais, estendia-se a Grande Tundra onde galopavam renas e bisontes, pastavam ma­mutes e rinocerontes lanudos. Atrás das imen­sas manadas andavam os homens; tribos nóma­des de caçadores que deviam levar uma vida se­melhante à dos índios americanos da pradaria. Os animais forneciam tudo: peles para vestir e deitar, ossos para instrumentos e adornos, carne para comer, gordura para as lâmpadas. A idade áurea da caça e da pesca na Europa. Os caçadores magdalenienses (esse é o no­me dado modernamente à sua cultura) faziam coisas quase inexplicáveis para um homem mo­derno. Metiam-se em profundas cavernas, ainda hoje dificilmente exploráveis com nos­sos recursos, carregando lenha, armas, e potes de tinta preta e tinta vermelha — fabricadas misturando gordura com carvão e terra verme­lha. Às vezes, para atingir o ponto desejado — amplos salões subterrâneos — era preciso vadear rios perigosos, descer por escarpas ín­gremes, onde, certamente, muitos morreram. Aparentemente, a regra era: quanto mais ocul­to, melhor. Atingidas as vastas galerias e sa­lões que tanto esforço custara descobrir, acen­diam-se fogueiras e os feiticeiros pintavam nas paredes (com os dedos ou pincéis primitivos os animais que viviam lá fora na tundra. Mas só os animais de caça. Nada que não fosse útil era representado. Em seguida dançava-se e as figuras eram golpeadas com lanças e flechas — ritos propiciatórios da caça. Para o caçador, de alguma maneira obscura, o destino do animal a ser caçado era selado de antemão naquela caverna.
O descuido dos pintores com sua obra era total. Uma vez usada, a figura era desprezada: raspava-se ou pintava-se por cima, como se não existisse.
Mas o eixo do planeta continuou a deslo­car-se em sua lenta progressão milenária. Na nova inclinação os gelos recuaram sob a luz do sol, a tundra desapareceu, os ricos campos de caça sumiram. Privadas de sua fonte de vida, as tribos definharam, dispersaram-se acompanharam as pequenas manadas restantes, cada vez mais para o norte. As cavernas foram fechadas pela terra, desmoronaram, ou foram levadas pelos rios. Quinze mil anos depois um garoto que brincava no mato, nos Pireneus, enfiou-se por um buraco no chão, viu alguns desenhos nas paredes e foi correndo chamar o pai. Assim ocorreu a descoberta da arte pré-histórica. Os desconhecidos autores dos dese­nhos das cavernas muito estranhariam o in­teresse por sua obra — eles que tão pouca im­portância lhe davam. Não sabiam, mas ha­viam produzido a primeira grande arte de nos­sa espécie. São desenhos de uma habilidade fabulosa. Poucos traços e os animais surgiam vivos das paredes, galopando, pastando, mor­rendo, lutando. Tal poder de síntese só seria conseguido muito mais tarde, na pintura chi­nesa e na japonesa,
A idade áurea da caça e do desenho fene­cera sem deixar herança, como uma flor sem raízes. A vida cultural e, portanto, a tradição artística dependiam da existência das mana­das. Acabadas estas, desfez-se a cultura magda­leniense, sem deixar herdeiros. Esses caçadores não foram os únicos a pintar em cavernas e lajes. Na Rodésia, no Saara, na Noruega, mes­mo no Brasil, há pinturas rupestres de primi­tivos. Mas nada se compara à extraordinária e efémera floração da arte magdaleniense. Só com o aparecimento da agricultura tornaria a surgir pintura comparável à das cavernas de Lascaux (França) e Altamíra (Espanha).


A arte dos impérios camponeses
Entre seis e cinco mil anos atrás, nos fér­teis vales do Indo, Nilo e Tigre-Eufrates, surgiram as primeiras cidades. A agricultura recém-descoberta permitiu aos homens abando­nar a vida nómade e fixar-se num território. Nas cidades a divisão do trabalho e da posse fêz aparecerem as classes sociais, entre elas a dos artesãos, gente especializada em esculpir, pintar, moldar, fundir. Ricos mercadores enco- mendavam objetos de luxo — o que fez surgi­rem as artes suntuárias e, certamente, a pin­tura de tecidos para roupa.
Mas a grande pintura, ainda dessa vez, de­senvolveu-se ligada à magia. Se antes era pre­ciso propiciar os espíritos da caça, agora tra­tava-se de cair nas boas graças dos espíritos da chuva, do vento, do granizo, da seca. Os sacer­dotes tinham por nova função assegurar a fecundidade da terra e a benignidade do céu. Mesmo antes que nas primitivas cidades sur­gissem os palácios principescos, os primeiros edifícios foram templos e neles devem ter-se produzido os primeiros afrescos — nova técni­ca de pintura que surgiu com a arquitetura. Entretanto, o mais antigo fragmento conhecido dessa técnica pertenceu ao palácio real de Mari, na Mesopotâmia — uma cena de sacrifí­cios animais. Sua preservação é um verdadei­ro milagre realizado pelas areias desérticas que o recobriram. O afresco é um método de pin­tura com resultados delicadíssimos. Os pig­mentos são empastados com ovos e aplicados diretamente no estuque fresco — daí o nome.
Ao contrário do vigoroso naturalismo que fora a arte dos magdaleníenses, a pintura mu­ral do Egito e da Mesopotâmia é hierática e solene. Não retrata o mundo, mas cosmogonias — tentativas de explicação da origem do Universo — e aventuras dos deuses. A vida diária nunca é representada. Apenas um pou­co da vida da corte transparece aqui e ali, num pequeno trecho de parede, no coração das pi­râmides que os faraós erigiam para preservar eternamente seus corpos. Uma ou outra cena de caça, pesca e dança, em que um povo mo­reno, de grandes olhos rasgados, pintado em cores chapadas e sempre de perfil, reverencia o príncipe-deus.
Na Mesopotâmia, a pintura — como o baixo-relêvo — reflete as condições da região: a guerra permanente da Idade do Bronze. Mas­sacres e mais massacres são reproduzidos mo­notonamente para imortalizar a fama dos prín­cipes guerreiros. Duas vezes maior que as ou­tras figuras, Sar o príncipe temível, pisa os vencidos ou diverte-se caçando leões. Mas pouco, muito pouco, nos restou da pintura mesopotâmica.
Na mesma época, no coração do Mediterrâ­neo, em Creta — importante centro comercial —, surge a pintura mais elegante e hedonista da antiguidade. No palácio real de Cnossos, metrópole dos mercadores, elegantíssimos tou­ros e figuras de jovens atletas e cortesãos vivem alegres cenas de jogos e procissões. Graças ao comércio, a arte dos cretenses se dissemina pe­las ilhas do Egeu e sul da Grécia.
Até que um dia guerreiros loiros — os dóricos —, descendo as montanhas da Tessália, varreram a influência cretense da península grega. Eles criaram a maior das civilizações da antiguidade — a helénica.
Paradoxalmente, nada nos resta de sua gran­de pintura nas paredes e pranchas de madeira, apenas descrições escritas que falam de uma arte realista. E as belas cerâmicas, onde os deuses são tratados com certa ironia. Contudo, através da influência grega na Itália, soube-se algo de sua arte mural.
A pintura romana também estava destinada à destruição total, não tivesse o Vesúvio soter­rado Pompéia e Herculano sob lavas e cin­zas. Mas não se pode afirmar que os afres­cos destas cidades representassem a grande pintura da época. Pelo contrário, trata-se, pro­vavelmente, de obra de segunda categoria. Ain­da assim, pode-se ver, através dela, um domínio moderno da perspectiva e da noção de volume, que será perdido nas épocas sucessivas — a Românica e a Bizantina — para reaparecer na Europa Renascentista.


A Idade Média

O grande império mediterrâneo dos roma­nos veio abaixo no século V, devorado interna­mente pelo sistema escravocrata e externamen­te pelos bárbaros. No caos geral formaram-se Bizâncio e o Império do Ocidente. Em ambos, as artes são pálida sombra do que foram na Grécia.
Os dois impérios são cristãos. Em Bizâncio a arte volta a ser monumental e hierática co­mo no velho Egito. O afresco é quase completamente substituído pelo mosaico representan­do os imperadores semidivinos confabulando pessoalmente com Jesus Cristo ou com a Virgem, é uma arte que tem por função mos­trar ao povo a origem divina do poder impe­rial.
A pintura torna-se quase que só pintura de ícones — tábuas de madeira onde são repre­sentados os feitos dos santos —, executados pe­los monges. Ao contrário dos egípcios, que só representavam de perfil, os bizantinos só de­senham os rostos de frente. Os pigmentos das tintas eram dissolvidos em cola animal para aderirem à madeira. Ou então, misturados a resinas derretidas que penetravam a madei­ra, formando, quando secas, uma superfície brilhante.
No Império do Ocidente, aparece a arte Românica, que é de inicio a arte romana de generada _ e submetida a influências asiáticas Mas logo ela se torna uma pintura extrema­mente ingénua e popularesca, em que a ten­tativa de representar a natureza é substituída por uma figuração convencional estereotipada. Ainda assim, às vêzcs surgem delicadas figu­ras de santos, feitas por alguns mestres ingé­nuos. O Românico se extinguira com o flores­cer do Gótico (século XIII), período que cor­responde a um progressivo enriquecimento das cidades e refinamento das artes. Mas a rígida escola bizantina sobreviverá mesmo à queda de Bizâncio, continuando a existir na Grécia, na Rússia e nos Balcãs. A arte dos ícones apenas recentemente deixou de existir. Antes de de­saparecer fêz surgir de seu seio um grande mestre — Domenicos Theotocopulos, El Greco — que quando jovem estudou pintura com os monges gregos.

enc. conhecer abril

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Pintura, a mais antiga das artes 2

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A mais antiga das artes II

Divinas core

Serão as telas de Bosch um prolongamento de seus pesadelos? Ou apenas retinas su­plementares para observar a vida? Que é esse ôvo ôco de paredes ruídas, perfurado pelos ramos que partem de suas pernas — troncos plantados sobre sapos gigantescos? O ôvo tem um rosto humano de terrível expressão. E, so­bre a cabeça, uma bandeja sustenta um estra­nho objeto terminado em qualquer coisa como uma flauta, à qual se agarra um personagem, enquanto estranhos seres se movimentam à sua volta. E, acima, as orelhas feridas por uma flecha sufocam a multidão.
Tudo isso é só um detalhe do "Inferno Mu­sical" que compõe o tríptico Jardim âas Delí­cias, que mede ao todo 220 x 389 cm.
Este é um dos muitos exemplos da imagi­nação criadora de um dos mais estranhos pin­tores do Ocidente: o holandês Hieronymus Bosch (1460?-! 516). Sua obra ultrapassou os limites de seu tempo, o século XV, e de seu meio, a Europa em fins da Idade Média. É por isso uma exceção. Poís, em cada época, a pintura seguiu padrões determinados, com um estilo particular de ver e representar o mundo.
Depois de Roma
Depois que Constantino, em 313 d.C, sub­meteu Roma, seu império, a um reino mais vasto — o de Cristo —, ao adotar o cristianismo como religião oficial, a arte passou a ser forte­mente influenciada pela fé crista. Coma divi­são em 395, a arte cristã enveredou por rumos diferentes, nas duas porções do Império: oci­dental e oriental. O ramo oriental desenvol­veu-se prhneiro, a partir do reinado de Justi-niano (527 a 565), estendendo-se sobre o Egi-to, a Pérsia, a Ásia Menor, a Síria, a África do Norte e o exarcado de Ravena (Itália). Sua capital foi Bizâncio.
Em Bizâncio, sede do Império Romano do Oriente, toda a atívídade artística subordina­va-se à religião. Os sacerdotes incumbiam a arte da tarefa didática e propagandística de re­presentar os dogmas e as verdades da fé, além cie .exaltar a sagrada pessoa do imperador, con­siderado o representante de Deus na Terra. E, para que tal finalidade não se perdesse, con­vencionaram uma série de fórmulas que acaba­ram por "padronizar" os estilos. da pintura bi­zantina. O modo de arranjar as composições e distribuir os coloridos era sempre o mesmo. As mãos e os olhos eram sempre iguais. O céu, sem­pre dourado, numa associação do mais valioso bem terrestre (o ouro) ao bem supremo da sal­vação da alma- (o céu).
Outra lei a obedecer era a da frontalidade — as figuras eram apresentadas sempre de frente — desprezando a perspectiva e as três dimensões do espaço. A modalidade mais explo­rada, o mural, era executada através de duas técnicas: a têmpera — mistura de tintas e um adesivo (clara de ôvo ou goma) e subse­quente aplicação sobre o estuque ressequido das paredes; e o afresco — aplicação das tin­tas sobre o revestimento ainda úmido.
Também eram comuns os ícones, já uma espécie de imagens móveis. Representações de Cristo, da Virgem, dos apóstolos e dos santos de maior devoção utilizavam a técnica da encáustica. As tintas eram dissolvidas em cera aquecida, e portanto líquida, que, depois de ser aplicada ao quadro, endurecia pelo resfria­mento. Nesse meio tempo podiam ser engas­tadas pérolas, pedras e metais preciosos.
De tudo o que a arte bizantina realizou, o mais característico foi o mosaico. Com peque­nos cubos de mármore, terracota ou esmalte, os artistas bizantinos construíram uma arte decorativa monumental, complemento da arquitetura, a decorar as paredes. Na Igreja de

São Vital, em Ravena, há dois deles, dedica­dos a Justiniano e Teodora, sua esposa.
A pintura dos murais morais
Enquanto tudo isso acontecia em Bizâncio, na parte ocidental do antigo Império Romano a arte dava seus primeiros passos. As condições não eram muito favoráveis ao seu desenvolvi­mento. Ao contrário da porção oriental, o Im­pério do Ocidente se atomizara sob o impacto das invasões sucessivas das tribos germânicas. A vida económica regredira. E, nesse processo, muito da herança romana se perdeu.
Místico e temente a Deus, o europeu medie­val negava os instintos e as paixões, forças ma­léficas que o separavam da pureza divina. A partir do século XI, esse estado de espírito coletivo encontra desabafo na arte, que se pro­põe servir a Deus e exaltar o sentimento reli­gioso dos fiéis. Daí ter abstraído a realidade física exterior para entregar-se a representações idealizadas. E, nesse afã, congregaram-se a ar-


quitetura, a escultura e a pintura no que se chamada românica e dominou todo o ex uma perfeita harmonia na expressão de um mesmo ideal artístico. A arte deste período é chamada românica e dominou todo o ex-Império Romano, desde a Itália até a Gália (França), Germânia, Espanha e Inglaterra. Na arquitetura, as superfícies contínuas predominavam sobre as aberturas (janelas; arcos, ete), propiciando o desenvolvimento da pintura mural, realizada pela técnica do afres­co. Pintados para serem vistos a distância, os murais obedeciam a esquemas simples de dese­nho e colorido. As cores, inicialmente em núme­ro reduzido, se foram diversificando ao mesmo tempo que ganhavam em intensidade. Os te­mas, sempre emprestados à religião, eram re­presentados de duas maneiras: uma, influen­ciada pelos ícones e mosaicos bizantinos, mos­trava figuras convencionais e desenhos geomé­tricos, tudo altamente simbólico. Outra, niti­damente popular, liberta de convencionalismos, era mais espontânea no traçado e na côr.

Original pintura ogival

A última arte de inspiração cristã da Idade Média nasce no século XIII, na região da lie de France, onde se encontra Paris. Chamou-se gótica (de godo, povo germânico que invadiu a Europa nos primeiros séculos da Idade Mé­dia), designação pejorativa criada pelos artis­tas do período posterior — a Renascença — para designar uma arte que se afastara dos padrões clássicos greco-romanos. Mais própria seria a denominação ogival, termo designativo do arco quebrado ou agudo que caracteriza as catedrais, monumentos por excelência dessa arte.
A arquitetura era a principal manifestação da arte gótica e as demais a ela serviam. Eram complementos das estruturas arquitetônicas, às quais se integravam ainda mais completamente do que no período anterior.
As paredes perderam a função de susten­táculo, substituídas pelas colunas. Deixaram assim de ser maciças e contínuas, transforman­do-se em frágeis estruturas onde se encaixavam
gigantescos vitrais que, com seu feérico colorido, modificado pelas mutações da luz, substituí­ram a pintura mural. Fora eles, as únicas pin­turas decorativas ornamentavam nervuras e arcos ou então os capitéis e as estátuas.
Fora das catedrais, a pintura gótica encon­trava expressão em miniaturas e iluminuras (ornamentos que enfeitavam as letras capitu­lares) que ilustravam livros e pergaminhos in­teiramente executados a mão. Foram até o século XIV realizadas com exclusividade pelos monges. Nesse século, ainda, a pintura encon­tra superfícies para decorar fora das igrejas, nos monumentos civis, palácios e residências. Mas no século XV perde os livros, pois os aperfeiçoamentos ao invento de Gutenberg possibilitam a impressão de -gravuras a partir de matrizes de metal ou madeira. As iluminu­ras e miniaturas evoluem para pequenos qua­dros de cavalete. O primeiro, datado de 1360 e atribuído a Girand D'OrIéans, é um retrato de João, o Bom, cujo perfil se recorta sobre fundo dourado. Remota reminiscência bizantina, e uma das últimas, pois os pintores de cavalete italianos dispensaram-nas em seus quadros. Formavam duas escolas: a de, Florença, representada por Giotto di Bondone (1267-1337), de inspiração popular e compo­sição a um só tempo simples e monumental. E a de Siena, mais aristocrática, representada por Símone Martini (1283?-I344), revelando acen­tuado gosto pelo detalhe, elegância e decorativismo.
Assim dividido, raiou o século XV.

Moldura da arte futura
O novo século destruía, ano a ano, as velhas estruturas medievais, substituindo a economia agrícola pelo comércio e pelo artesanato; tro­cando o campo pela cidade. A Itália é a pri­meira a operar estas transformações.
No campo das artes, o século XV limpou dos quadros a influência bizantina, substituin­do-a por um certo realismo. O espaço ganha as três dimensões, "o claro-escuro" sugere vo­lumes e imprime verossimilhança às paisagens e às figuras humanas. Os artistas desta fase são pontes entre o estilo anterior e as futuras concepções renascentistas. São por isso chama­dos pré-renascentistas, indecisos ainda entre o cristianismo e o humanismo que caracterizaria o grande movimento.
A sociedade também se está transformando: as cidades italianas, enriquecidas pelo comércio, são governadas por famílias importantes, protetoras das artes e ciências. A República de Florença, a mais rica e poderosa, torna-se sob a tutela dos Medíeis a capital artística da Eu­ropa. Lá trabalham os mais significativos artis­tas pre-renascentistas. Entre eles destacam-se: Sandro Botticelli (1444M510), típico artista de transição. Seu estilo é linear, não há efeitos de claro-escuro nem impressão de volume, e os motivos decorativos traem a influência das mi­niaturas góticas. Mas os temas mitológicos de inspiração grega e pagã já anunciam o Renas­cimento. "O Nascimento de Vénus" e a "Alegoria . da Primavera" estão entre suas obras mais significativas. Tomaso Masaccio (1401-1428) renega vigorosamente as tradi­ções do Oriente para criar uma pintura monu­mental de grandes espaços e massas e de feição naturalista e inspiração popular. Fra Giovanni da Fiesoie, Fra Angélico (1387-1455), prior do convento dominicano de São Marcos, em Florença, supera o estilo gótico pelas preocupa­ções com a composição e o espaço. Paolo Ucello (1379-1475) aplica em suas composições uma perspectiva rigorosamente traçada, geomerriza as formas, confere-lhes cores sombrias. Piero delia Francesca (1420?-1492) estuda e apli­ca as regras da composição matemática emprega­das na Antiguidade clássica, denominada por Da Vínci "divina proporção". As paisagens e fi­guras humanas exibem proporções harmoniosas.
Já os maiores avanços técnicos foram obra de flamengos (pintores de Flandres, condado submetido à suserania dos reis. da França, que compreendia o Norte da França e parte da Bélgica). Entre eles destacaram-se os irmãos Jan e Hubert Van Eyck, que inauguraram a pintura a óleo — dissolvendo as tintas em óleo de linhaça —, de execução rápida e fácil, além de oferecer ao artista maiores recursos. O óleo conservou perfeitamente os valores poéticos, as sutilezas de iluminação e o suntuoso colorido gravado nas telas de Jan Van Eyck. Sua arte e técnica fizeram escola, influenciando muitos pintores de vários países. E também flamengo é o notável Hieronymus Bosch.
Entre os demais* pré-renascentistas distingui­ram-se os franceses Henri de Bellechose (1380?-1440), Jean Malouel (? 419) e Simon Marmion (1420?-1489), o alemão Martin Schongauer (1445-1491) e os espanhóis Pedro Berruguete (?-I504?) e Bartolomé Bermejo (1425?-1498).


A razão da Renascença

No século XVI, do feudalismo sobrava só uma névoa a embaciar ainda a nova ordem, e que aos poucos vai sendo deixada para trás pela marcha do comércio, pelo desenvolvimento do artesanato, pelos revolucionários feitos da técnica, pela acumulação de capital em mãos burguesas, pela exploração e conquista dos mares e terras. Tudo isso estimulou o de­senvolvimento das ciências e das artes. A racionalidade tornou-se o valor supremo, suplan­tando a fé e o misticismo. As representações místicas deram lugar ao realismo. Mesmo as representações de temas religiosos, que persis­tem, são humanizadas. Pois o homem é o cen­tro do mundo e medida de todas as coisas. Seu corpo não é mais o inimigo da sua alma, e sim o intérprete. A natureza é a mãe universal. Buscando uma volta dos ideais clássicos de racionalídade e harmonia, o artista do Renasci­mento cria uma arte original, marcada pela valorização dos dotes racionais do homem, pelo realismo e humanismo.
O movimento tem seus centros em Roma, Veneza e Parma. E são muitos seus artífices.
Leonardo da Vinci (1452-1519), tendo es­tudado cuidadosamente o corpo humano, arrisca-se pelos labirintos da psicologia. "A Santa Ceia" é um estudo metódico da expressão segundo os caracteres dos diversos personagens. Na "Gioconda" procura fazer o mistério inte­rior aflorar nas vibrações luminosas da atmos­fera e na flexibilidade do corpo, conseguidas pelo sfumato,
Rafael Sanzio (1483-1520) criou um protótipo de madona (virgem), de rosto ova­lado, semelhante ao das estátuas da antigui­dade. Conciliou paganismo e cristianismo, povoando a Bíblia de belas formas gregas. Equilibrou também os elementos essenciais da expressão pictórica — desenho e còr —, con­temporizando os ensinamentos das escolas flo-rentina e veneziana, numa atitude típica da escola romana.
Michelangelo Buonarroti (1475-1564) re­tirou das estátuas gregas a conformação hercúlea do corpo do homem, que em suas telas estava sempre lutando contra o destino. E era sempre vencido. Assim, Michelangelo rompe o equilíbrio entre beleza e expressão (de que Rafael era o mestre), para dar um toque dramático e violento, que se mostra no "Juízo Final" pintado no teto da Capela Sistina (Vaticano), em que um Deus titânico fulmina a humanidade.
Suas obras foram antevisões do barroco, arte do século que estava por vir.

enc. conhecer abril

27.2.09

Pintura, a mais antiga das artes 4

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A mais antiga das artes IV


Há uns 600 mil anos, o gelo cobria todo o norte da Europa. Ao sul, da França Urais, estendia-se a Grande Tundra onde galopavam renas e bisontes, pastavam ma­mutes e rinocerontes lanudos. Atrás das imen­sas manadas andavam os homens; tribos nóma­des de caçadores que deviam levar uma vida se­melhante à dos índios americanos da pradaria. Os animais forneciam tudo: peles para vestir e deitar, ossos para instrumentos e adornos, carne para comer, gordura para as lâmpadas. A idade áurea da caça e da pesca na Europa. Os caçadores magdalenienses (esse é o no­me dado modernamente à sua cultura) faziam coisas quase inexplicáveis para um homem mo­derno. Metiam-se em profundas cavernas, ainda hoje dificilmente exploráveis com nos­sos recursos, carregando lenha, armas, e potes de tinta preta e tinta vermelha — fabricadas misturando gordura com carvão e terra verme­lha. Às vezes, para atingir o ponto desejado — amplos salões subterrâneos — era preciso vadear rios perigosos, descer por escarpas ín­gremes, onde, certamente, muitos morreram. Aparentemente, a regra era: quanto mais ocul­to, melhor. Atingidas as vastas galerias e sa­lões que tanto esforço custara descobrir, acen­diam-se fogueiras e os feiticeiros pintavam nas paredes (com os dedos ou pincéis primitivos os animais que viviam lá fora na tundra. Mas só os animais de caça. Nada que não fosse útil era representado. Em seguida dançava-se e as figuras eram golpeadas com lanças e flechas — ritos propiciatórios da caça. Para o caçador, de alguma maneira obscura, o destino do animal a ser caçado era selado de antemão naquela caverna.
O descuido dos pintores com sua obra era total. Uma vez usada, a figura era desprezada: raspava-se ou pintava-se por cima, como se não existisse.
Mas o eixo do planeta continuou a deslo­car-se em sua lenta progressão milenária. Na nova inclinação os gelos recuaram sob a luz do sol, a tundra desapareceu, os ricos campos de caça sumiram. Privadas de sua fonte de vida, as tribos definharam, dispersaram-se acompanharam as pequenas manadas restantes, cada vez mais para o norte. As cavernas foram fechadas pela terra, desmoronaram, ou foram levadas pelos rios. Quinze mil anos depois um garoto que brincava no mato, nos Pireneus, enfiou-se por um buraco no chão, viu alguns desenhos nas paredes e foi correndo chamar o pai. Assim ocorreu a descoberta da arte pré-histórica. Os desconhecidos autores dos dese­nhos das cavernas muito estranhariam o in­teresse por sua obra — eles que tão pouca im­portância lhe davam. Não sabiam, mas ha­viam produzido a primeira grande arte de nos­sa espécie. São desenhos de uma habilidade fabulosa. Poucos traços e os animais surgiam vivos das paredes, galopando, pastando, mor­rendo, lutando. Tal poder de síntese só seria conseguido muito mais tarde, na pintura chi­nesa e na japonesa,
A idade áurea da caça e do desenho fene­cera sem deixar herança, como uma flor sem raízes. A vida cultural e, portanto, a tradição artística dependiam da existência das mana­das. Acabadas estas, desfez-se a cultura magda­leniense, sem deixar herdeiros. Esses caçadores não foram os únicos a pintar em cavernas e lajes. Na Rodésia, no Saara, na Noruega, mes­mo no Brasil, há pinturas rupestres de primi­tivos. Mas nada se compara à extraordinária e efémera floração da arte magdaleniense. Só com o aparecimento da agricultura tornaria a surgir pintura comparável à das cavernas de Lascaux (França) e Altamíra (Espanha).


A arte dos impérios camponeses

Entre seis e cinco mil anos atrás, nos fér­teis vales do Indo, Nilo e Tigre-Eufrates, surgiram as primeiras cidades. A agricultura recém-descoberta permitiu aos homens abando­nar a vida nómade e fixar-se num território. Nas cidades a divisão do trabalho e da posse fêz aparecerem as classes sociais, entre elas a dos artesãos, gente especializada em esculpir, pintar, moldar, fundir. Ricos mercadores enco- mendavam objetos de luxo — o que fez surgi­rem as artes suntuárias e, certamente, a pin­tura de tecidos para roupa.
Mas a grande pintura, ainda dessa vez, de­senvolveu-se ligada à magia. Se antes era pre­ciso propiciar os espíritos da caça, agora tra­tava-se de cair nas boas graças dos espíritos da chuva, do vento, do granizo, da seca. Os sacer­dotes tinham por nova função assegurar a fecundidade da terra e a benignidade do céu. Mesmo antes que nas primitivas cidades sur­gissem os palácios principescos, os primeiros edifícios foram templos e neles devem ter-se produzido os primeiros afrescos — nova técni­ca de pintura que surgiu com a arquitetura. Entretanto, o mais antigo fragmento conhecido dessa técnica pertenceu ao palácio real de Mari, na Mesopotâmia — uma cena de sacrifí­cios animais. Sua preservação é um verdadei­ro milagre realizado pelas areias desérticas que o recobriram. O afresco é um método de pin­tura com resultados delicadíssimos. Os pig­mentos são empastados com ovos e aplicados diretamente no estuque fresco — daí o nome.
Ao contrário do vigoroso naturalismo que fora a arte dos magdaleníenses, a pintura mu­ral do Egito e da Mesopotâmia é hierática e solene. Não retrata o mundo, mas cosmogonias — tentativas de explicação da origem do Universo — e aventuras dos deuses. A vida diária nunca é representada. Apenas um pou­co da vida da corte transparece aqui e ali, num pequeno trecho de parede, no coração das pi­râmides que os faraós erigiam para preservar eternamente seus corpos. Uma ou outra cena de caça, pesca e dança, em que um povo mo­reno, de grandes olhos rasgados, pintado em cores chapadas e sempre de perfil, reverencia o príncipe-deus.
Na Mesopotâmia, a pintura — como o baixo-relêvo — reflete as condições da região: a guerra permanente da Idade do Bronze. Mas­sacres e mais massacres são reproduzidos mo­notonamente para imortalizar a fama dos prín­cipes guerreiros. Duas vezes maior que as ou­tras figuras, Sar o príncipe temível, pisa os vencidos ou diverte-se caçando leões. Mas pouco, muito pouco, nos restou da pintura mesopotâmica.
Na mesma época, no coração do Mediterrâ­neo, em Creta — importante centro comercial —, surge a pintura mais elegante e hedonista da antiguidade. No palácio real de Cnossos, metrópole dos mercadores, elegantíssimos tou­ros e figuras de jovens atletas e cortesãos vivem alegres cenas de jogos e procissões. Graças ao comércio, a arte dos cretenses se dissemina pe­las ilhas do Egeu e sul da Grécia.
Até que um dia guerreiros loiros — os dóricos —, descendo as montanhas da Tessália, varreram a influência cretense da península grega. Eles criaram a maior das civilizações da antiguidade — a helénica.
Paradoxalmente, nada nos resta de sua gran­de pintura nas paredes e pranchas de madeira, apenas descrições escritas que falam de uma arte realista. E as belas cerâmicas, onde os deuses são tratados com certa ironia. Contudo, através da influência grega na Itália, soube-se algo de sua arte mural.
A pintura romana também estava destinada à destruição total, não tivesse o Vesúvio soter­rado Pompéia e Herculano sob lavas e cin­zas. Mas não se pode afirmar que os afres­cos destas cidades representassem a grande pintura da época. Pelo contrário, trata-se, pro­vavelmente, de obra de segunda categoria. Ain­da assim, pode-se ver, através dela, um domínio moderno da perspectiva e da noção de volume, que será perdido nas épocas sucessivas — a Românica e a Bizantina — para reaparecer na Europa Renascentista.


A Idade Média

O grande império mediterrâneo dos roma­nos veio abaixo no século V, devorado interna­mente pelo sistema escravocrata e externamen­te pelos bárbaros. No caos geral formaram-se Bizâncio e o Império do Ocidente. Em ambos, as artes são pálida sombra do que foram na Grécia.
Os dois impérios são cristãos. Em Bizâncio a arte volta a ser monumental e hierática co­mo no velho Egito. O afresco é quase completamente substituído pelo mosaico representan­do os imperadores semidivinos confabulando pessoalmente com Jesus Cristo ou com a Virgem, é uma arte que tem por função mos­trar ao povo a origem divina do poder impe­rial.
A pintura torna-se quase que só pintura de ícones — tábuas de madeira onde são repre­sentados os feitos dos santos —, executados pe­los monges. Ao contrário dos egípcios, que só representavam de perfil, os bizantinos só de­senham os rostos de frente. Os pigmentos das tintas eram dissolvidos em cola animal para aderirem à madeira. Ou então, misturados a resinas derretidas que penetravam a madei­ra, formando, quando secas, uma superfície brilhante.
No Império do Ocidente, aparece a arte Românica, que é de inicio a arte romana de generada _ e submetida a influências asiáticas Mas logo ela se torna uma pintura extrema­mente ingénua e popularesca, em que a ten­tativa de representar a natureza é substituída por uma figuração convencional estereotipada. Ainda assim, às vêzcs surgem delicadas figu­ras de santos, feitas por alguns mestres ingé­nuos. O Românico se extinguira com o flores­cer do Gótico (século XIII), período que cor­responde a um progressivo enriquecimento das cidades e refinamento das artes. Mas a rígida escola bizantina sobreviverá mesmo à queda de Bizâncio, continuando a existir na Grécia, na Rússia e nos Balcãs. A arte dos ícones apenas recentemente deixou de existir. Antes de de­saparecer fêz surgir de seu seio um grande mestre — Domenicos Theotocopulos, El Greco — que quando jovem estudou pintura com os monges gregos.

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