3.3.09

Anabolizante

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ABUSO DE ANABOLIZANTES

DRAUZIO VARELLA

Para melhorar o desempenho ou a aparência física, muitos atletas e frequentadores de academias correm vários e graves riscos

Durante a segunda guerra mundial, os nazistas administravam hormônios derivados da testoste-rona para aumentar a agressividade dos soldados alemães. Esses hormônios anabolizantes - chamados de esteróides androgênicos - foram estudados na década de 1950 como agentes promotores de crescimento, mas suas propriedades virilizantes tornaram o uso clínico inviável.
Não é de hoje que alguns atletas usam anabolizantes com o objetivo de melho­rar a performance, mas foi nos últimos dez anos que o abuso dos esteróides se disseminou entre frequentadores de aca­demias sem nenhum interesse em parti­cipar de competições esportivas, unica­mente para melhorar a aparência física.
Quando andrógenos são ingeridos ou injetados na corrente sanguínea, a testos-terona ao passar pelo fígado é metabolízada e tornada inerte. Para impedir essa inativação, surgiram adesivos transdér-micos, cápsulas de liberação prolongada e preparações contendo modificações es­truturais na fórmula da testosterona.
Doses fisiológicas de testosterona e seus derivados, como aquelas empregadas em homens com hipogonadismo (insuficiência de produção de testoste­rona), não exercem efeitos indesejáveis em homens normais. Por isso, quem abusa de anabolizantes é obrigado a au­mentar e escalar as doses para obter o efeito desejado - exatamente como o fa­zem os usuários de outras drogas.
Doses mais altas (suprafisiológicas) de testosterona estimulam a síntese de pro­teínas e aumentam a massa muscular porque o hormônio se liga a receptores específicos localizados nas fibras mus­culares. Dosagens mais elevadas provo­cam ainda euforia e resistência à fadiga, facilitando a realização de exercícios mais vigorosos, que colaboram decisiva­mente para hipertrofiar a musculatura.
Alguns estudos mostram que o exer­cício físico é muito importante para o ganho de massa muscular associado ao uso de anabolizantes. Esses, quando ad­ministrados a sedentários, provocam aumentos bem mais discretos.
O abuso de anaboiizantes provoca distúrbios comportamentais, endócrinos, cardiovasculares, hepáticos e músculo-esqueléticos.

São frequen­tes as queixas de agressividade exacer­bada, irritabilidade, agitação motora e aumento ou diminuição da libido. Síndromes psiquiátricas, como transtor­no bipolar (anteriormente conhecida com o nome de psicose maníaco-de-pressiva), síndrome do pânico e qua­dros depressivos, podem surgir na vi­gência do uso de doses elevadas.
É comum aparecerem lesões dermatológicas típicas de acne - principalmente na face -, atrofia dos testículos, calvície, impotência sexual, diminuição do número e da motilida­de dos espemiatozóides, redução do volume de esperma ejaculado, gineco-mastia (crescimento das mamas em homens), masculinização das mulhe­res e alterações na tolerância à glicose que podem desencadear quadros de diabetes em indivíduos predispostos.
CARDIOVASCULARES: retenção de lí­quido que favorece o aparecimento de edemas. Aumento da pressão arterial. Al­teração no metabolismo dos lípides que podem levar a aumento do risco de doen­ças cardiovasculares: aumento do colesterol total, diminuição de HDL ("bom co­lesterol"), aumento de LDL ("mau coles­terol") e aumento de triglicérides.
HEPÁTICOS: elevação das enzimas do fígado (transaminases, fosfatase alcali­na, gama GT, etc). Quadros de icterícia e, mais raramente, câncer do fígado.
MÚSCULo-ESQUELÊTIGOS: lesões osteomusculares por solicitação exage­rada ("overuse"). Fechamento precoce das epífises, com consequente inter­rupção do crescimento dos ossos.
Não existe tratamento específico para o uso abusivo de anabolizantes. Como essas drogas são geralmente co­mercializadas por vias ilegais c admi­nistradas em dosagens e concentra­ções variáveis por pessoas leigas, não há estudos clínicos para nos ajudar a definir esquemas seguros de adminis­tração, se é que eles existem.

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