2.3.09

Formas de Saudaçao

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Comportamento

Para os ocidentais, cuspir em alguém é ofensa grave. E cer­tamente não ficaria impune. Mas, para um homem bem educado de algumas tribos africanas, a cusparada é um modo muito gentil de cumprimento, é até uma homenagem, feita por um guerreiro consagrado a um jovem que o admira. Este a re­cebe com gratidão, prova de que é aceito como igual.
Se essas tribos tivessem, de algum modo, influenciado a hu--manidade, provavelmente sua típica saudação estaria mais di­vulgada e não causaria espanto aos ocidentais. Como o aperto de mão, por exemplo. Este cumprimento originou-se em tempos primitivos, quando um homem estendia a mão a outro para de­monstrar que estava desarmado e era de paz. Já o hábito de tirar o chapéu ao cruzar com um conhecido, ou na presença de uma dama, vem da Idade Média: o cavaleiro, envolto em ferro dos pés à cabeça, erguia o elmo ou abria a viseira para dar-se a conhecer perante um amigo.
Assim, de cultura para cultura, varia o conjunto de regras que norteiam o bom comportamento do indivíduo em seu grupo social, ou seja, a etiqueta.

Gestos para saudar
Seguindo a evolução dos cumprimentos, per­cebe-se que muitos deles se originaram em de­monstrações de atitudes pacíficas, como o do cavaleiro medieval e o dos africanos de Ghana e da Costa do Ouro. Estes últimos descobrem os ombros, deixando cair seus mantos coloridos. Na origem, o gesto era para mostrar que não havia arma oculta nas dobras do manto.
Nem todos os cumprimentos, contudo, cor­respondem ao mesmo desejo de provar intenções de paz. Mas uma coisa é certa: desejando ou não, é sempre demonstração de respeito. Um cavalheiro da China imperial adotava seis tipos de saudações diferentes. Para um amigo, levan­tava as mãos e introduzia-as em suas longas man­gas. Entretanto,- para o imperador ou então para ouvir algum decreto imperial, curvava-se até o chão.
O francês da corte de Luís XIV também dis­tinguia seus cumprimentos: para um homem im­portante, levantava o chapéu; para uma dama, tirava-o completamente; e, para um homem de condição social inferior, apenas tocava na aba do
chapéu.
Entre amigos mais chegados, é costume, no Ocidente, abraçar para cumprimentar. Originá­rio das tribos primitivas, o abraço permaneceu também modernamente entre os andamaneses
do Leste da Índia, os nativos da Austrália e os habitantes da Terra do Fogo.
Mas há grupos que acham muito mais afe-tuoso esfregar os narizes que abraçar. E o que fa­zem os polinésios, malaios, mongóis, lapões e esquimós.
Escravos e subalternos, em algumas socieda­des primitivas, não tinham permissão para tais cumprimentos. Na presença do senhor ou do chefe, eram obrigados a prostrar-se. Nessa atitu­de foram imortalizados em algumas antigas es­culturas egípcias e assírias. Embora o costume tenha desaparecido, permaneceram resquícios entre os árabes, que tocam o solo com as mãos e depois as levam aos lábios e à testa, E também os habitantes de Tonga,' no arquipélago da Poli-nésia, guardaram vestígios dessa velha reverên­cia: tocam o chão no lugar onde o seu chefe pisou.

O beijo da saudação
O historiador grego Heródoto (século V a.C.) refere-se em sua obra ao cumprimento dos per­sas. Beijavam-se eles na boca, quando eram da mesma condição social, ou na face, quando a condição era diferente. Na Grécia beijava-se a mão, o peito ou o joelho de um superior. E os primeiros cristãos trocavam beijos como sinal de companheirismo.
Com o passar dos anos, porém, o beijo cristão foi restringido, por imposição da Igreja, a pessoas do mesmo sexo. Hoje, o primitivo beijo cristão transformou-se num ato de reconhecimento das auto­ridades eclesiásticas, que oferecem o anel ao ósculo dos fiéis.
Fora de implicações religiosas, o beijo passou a costume social, no Ocidente. No cerimonial de certas cortes, soberanos beijam-se nas faces; súditos, nas mãos. E nas cortes em que o beijo desapareceu, tanto das faces como dasjnãos, deixou ainda vestígios em frases como o alemão Kuss d'Hand e o espanhol Beso a usteâ Ias manos, ambas querendo dizer "Beijo-lhe as mãos".


O choro da alegria
Choro demonstra alegria para muitos povos primitivos, que com lágrimas celebram o reencontro com um amigo. Se se trata de um amigo enlutado, o pranto significará pesar. Entre os nativos da Austrália, é misturado a sangue e abraços: o parente mais pró­ximo do visitante estreita-o contra o peito, enquanto a parenta mais chegada enlaça os joelhos do hóspede com um abraço e com o outro arranha a própria face até sangrar.
Na Nova Zelândia, choro de luto e alegria faz parte do tangi, cerimonia celebrada quando da visita de parentes que vêm de re­giões longínquas, tenham ou não amigos mortos.


Palavras gentis
Um basuto, negro da África centro-meridional, saúda seu chefe respeitosamente dizendo-lhe: Toma s&vatal, o que significa: "Salve besta selvagem!" Já um negro conguês, ao regressar de viagem, di­rige a suas esposas a seguinte palavra: Okowe, ao que elas, de joe­lhos, humildemente respondem: Kal Kal Ambas as saudações nada significam: são apenas interjeições intraduzíveis.
Muçulmanos são mais sóbrios. Sua forma de saudação é uma espécie de senha, usada apenas entre companheiros de crença ou de idioma: Salãm câaikum (esteja em paz), respondida com Wa-alaikum as-salãm (E contigo a paz do Senhor). O mesmo dizem os judeus, desde os tempos bíblicos: Chalom aleikkem e Aleikhem Chalom. A significação é a mesma que em árabe e até há seme­lhança linguística.
Na Grécia antiga dizia-se sempre "Seja alegre", e em Roma a saudação era Salve! (Saúde!) no encontro, e Vale (Esteja bem) na despedida.
Os ocidentais modernos perguntam "Como vai", um tipo de frase estereotipada, respondida frequentemente com a mesma pergunta. Igualmente sem grande significado e traduzidas em todas as línguas ocidentais são as saudações "Bom dia", "Boa tarde", "Boa noite", "Bem-vindo" e "Adeus". Nesta última fórmula é claramente repre­sentado o elemento religioso (a Deus), bem como na tradução inglesa Good hye, contração da frase God be with you (Deus esteja contigo).
A despedida cortês também assume diferentes aspectos, segundo o lugar. Os habitantes da Nova Guiné, por exemplo, demonstram lamentar a partida de um hóspede gemendo e emplastrando-se de lama. Os tibetanos mostram-lhe a língua, querendo com isso mos­trar que apreciaram muito sua visita e sua conversa.

Os filósofos ditam a norma
Dizia Confúcio (551-479 a.C.) que o homem superior é sábio, moderado, prudente, corajoso, decente no falar e no agir. É afável, mas não bajulador. Não fere pássaros pousados, não pesca com rede, não se traja de púrpura. Nunca faz aos outros o que não de­seja que lhe façam. Durante cerca de 2 400 anos, o chinês procurou seguir estes preceitos.
Sócrates (469-399 a.C.) tinha um ideal parecido. O protótipo do cavalheiro para êle é o homem inteligente, sensato, corajoso, ge­neroso e equilibrado, no qual as virtudes intelectuais e morais se combinam harmoniosamente. Traja-se com simplicidade, caminha devagar e sobriamente, não fala alto, não ri às gargalhadas, não alardeia conhecimentos nem triunfos.
Também não divergia muito o ideal de Cícero (106-43 a.C): simplicidade e sobriedade, dignidade e decoro, diplomada e distinção. Não se vangloriar, não demonstrar conhecimentos de língua grega perante os incultos, não contratar na rua, e jamais dançar em público,
"exceto quando embriagado ou louco". Respeitar os mais velhos e reverenciar todos os homens.

Da nobreza à plebe
A palavra gentleman (cavalheiro) provém do latim gentilts (que pertence a uma gens = tribo) e do inglês man (homem). Significa, portanto, chefe de tribo, de boa família. Nesse sentido foi usado, durante muito tempo, como título de nobreza na Grã-Bretanha.
Na obra inglesa Títulos de Honra (1672) discute-se o título de gentleman como equivalente a nohilis e descrevem-se as várias for­mas de nobilizar, nos países europeus. William Harrison, um século mais tarde, dizia: "são gentlemen os que, pela raça, pelo sangue, ou pelas virtudes, se fazem nobres e conhecidos". Mas, apesar disso, não bastavam qualidades morais. Era preciso também um título de nobreza, um brasão ou escudo de armas.
Usada num sentido amplo, sem implicações com genealogias, mas no sentido em que os franceses chamam "noblesse oblige" (a no­breza obriga), gentleman ou cavalheiro tem várias acepções, segundo o contexto. Significa ora um homem de louvável conduta moral ou social, ora um indivíduo de vasta cultura, forte personalidade e belas maneiras. E, nas camadas populares, passou a equivaler sim­plesmente a homem.

Amor com educação
No século XII organizou-se, na Europa ocidental, uma corpora­ção fechada, na qual os membros só eram admitidos após uma ceri­mónia de iniciação e a demonstração de possuírem esprit de corps (espírito de equipe). Essa corporação, chamava-se Cavalaria. Regía-a um severo código de etiqueta, que vigorava já desde o século XI. Prescrevia para o perfeito cavaleiro a bravura, a lealdade, a invio­labilidade da palavra empenhada, a defesa dos fracos e dos oprimi­dos, da Igreja e do trono, da dama e da lei.
A dama era a criatura mais sublime, tratada com respeito e timidez. A ela o cavalheiro dedicava toda a sua vida, mesmo que seu amor não fosse correspondido. Além da vida, dedicava-lhe tam­bém poesias, seguindo a escola literária que se irradiou da Provença (Sul da França) para toda a Europa ocidental.
Com o declínio da sociedade feudal e suas instituições — entre as quais a Cavalaria —, o ideal de boas maneiras foi modificando-se e nacionalizando, tomando feições próprias em cada país.


À imagem da França
Em 1528, na Itália, o cortesão e diplomata Castiglione publicou o mais importante manual de etiqueta do período pós-medieval: ) Cortesão. Recomendava ao cavalheiro perfeito estudar muito, pra­ticar esporte, aperfeiçoar-se na dança, tocar alaúde, conversar bri­lhantemente, combater a presunção, a bisbilhotice, a malícia e o pedantismo. Mas, diante do prestígio da França, os homens de toda a Europa logo abandonaram Castiglione para seguir as regras fran­cesas. Até a Inglaterra, que resistiu o quanto pôde, acabou cedendo e enviando alguns de seus jovens súditos às escolas de boas ma­neiras parisienses.
A etiqueta francesa não era fácil. Pelo episódio seguinte, pode ter-se ideia do respeito dos franceses ao protocolo. Estando enfermo o Cardeal Richelíeu, prímeiro-ministro de Luís XIII, o rei foi visi­tá-lo. Mas rezava o protocolo que ninguém, nem mesmo doente, podia deixar de levantar-se na presença do monarca enquanto este estivesse em pé. Assim, para satisfazer ao rei, que desejava ver o cardeal, e, ao mesmo tempo, não .quebrar a etiqueta, Luís XIII foi conduzido aos aposentos de Richelieu recostado num divã e dali não se levantou até o final da entrevista.
Atualmente a etiqueta formal, rígida, à maneira francesa, man-teve-se apenas em cerimónias como funerais, festas de grande gala e no protocolo oficial das cortes e dos palácios governamentais. A tendência para maior liberdade na convivência social, especialmente entre os jovens, iniciou-se depois da I Guerra Mundial e tem au­mentado sem cessar. Entretanto, a juventude atual é cada vez mais livre, e assim ela pode criar sua própria etiqueta ou até suprimi-la.

Enc. Conhecer abril

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